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Porque o Brasil precisa ter centros de protonterapia
Os números sobre a incidência do câncer no Brasil, como no resto do mundo, são alarmantes, e esse crescimento se deve ao melhor acesso ao diagnóstico precoce, aumento da expectativa de vida e consequente envelhecimento da população.
Segundo dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer), são esperados 704 mil novos casos em 2025, com destaque para as regiões Sul e Sudeste, que concentram cerca de 70% de notificações da doença, segundo o estudo “Estimativa 2023 – Incidência de Câncer no Brasil”.
O estudo do INCA também destaca que o tumor maligno mais incidente no Brasil é o de pele não melanoma (31,3% do total de casos), seguido pelos de mama feminina (10,5%), próstata (10,2%), cólon e reto (6,5%), pulmão (4,6%) e estômago (3,1%).
E, entre esses casos, de 50% a 60% dos pacientes precisam de radioterapia em algum momento do tratamento. Estimativas internacionais sugerem que cerca de 10% a 15% desses pacientes poderiam se beneficiar clinicamente da protonterapia, uma forma mais avançada de radioterapia que permite maior precisão na entrega da dose de radiação, poupando tecidos saudáveis ao redor do tumor. Isso é especialmente importante em casos pediátricos ou tumores próximos a órgãos sensíveis.
Segundo o relatório RT20-30 de 2022 emitido pela Sociedade Brasileira de Radioterapia em 2021, o Brasil necessita, e de forma imediata, de 5 instalações de protonterapia de sala única apenas para os tumores pediátricos existentes. E ainda faz um alerta de que os projetos podem tomar entre 3 e 5 anos para estarem clinicamente operativos.
Estudos comprovam eficácia da protonterapia
Um estudo publicado na plataforma Campus da IBA, intitulado “Proton therapy in oncology – General Overview” publicado em 2022, menciona que, já em 1946, Robert Wilson foi o primeiro cientista a propor o uso de prótons acelerados e íons mais pesados para tratamento por radiação. O primeiro paciente foi tratado oito anos depois, em 1954, na Universidade Berkeley da Califórnia.
A IBA (Ion Beam Applications), empresa de origem belga, é a pioneira e líder em números de centros de protonterapia e é a nossa parceira neste segmento.
Três anos depois, no Instituto Gustav Werner, em Uppsala, Suécia, o mesmo feito foi alcançado pela primeira vez na Europa. A terapia de prótons foi inicialmente confinada a poucos centros ao redor do mundo e tipicamente praticada em um ambiente de pesquisa.
O primeiro sistema de terapia de prótons hospitalar foi instalado em 1990 no Centro Médico da Universidade Loma Linda, na Califórnia.
E, nas últimas duas décadas, a terapia de prótons passou por um rápido crescimento tanto em número de instalações quanto de pacientes tratados. Segundo dados do Particle Therapy Co-Operative Group (PTCOG), em março de 2025 existiam 133 centros de protonterapia em funcionamento no mundo e mais de 30 em construção. E, ainda segundo a organização, até o final de 2023, cerca de 350 mil pacientes haviam sido tratados com terapia de prótons.
O número crescente de centros de prótons e pacientes tratados facilitou o aumento da pesquisa clínica e dos ensaios cooperativos, proporcionando uma melhoria significativa da evidência clínica. O aumento da literatura científica e das publicações sobre desfechos clínicos pesquisadas no PubMed reflete este crescente interesse e a expansão das atividades clínicas em terapia de prótons.
Confira casos de sucesso no uso dessa terapia:
Tratamento de câncer ósseo
A Mayo Clinic relatou que a terapia por feixe de prótons é particularmente vantajosa no tratamento de tumores ósseos, que frequentemente requerem doses elevadas de radiação. Devido à sua precisão, a protonterapia permite a administração dessas altas doses diretamente no tumor, minimizando danos aos tecidos normais adjacentes. Essa abordagem resulta em melhores taxas de sobrevivência e eficácia no controle da doença.
Câncer de mama pós-mastectomia
Um estudo conduzido pela Mayo Clinic investigou o uso da terapia por feixe de prótons em pacientes que passaram por mastectomia. As pacientes foram divididas entre tratamentos convencionais e hipofracionados (ciclos mais curtos). Os resultados mostraram que ambos os grupos apresentaram excelente controle do câncer, sem afetar os tecidos normais circundantes, e as taxas de complicações foram semelhantes entre os grupos.
Tumores de cabeça e pescoço
A terapia de prótons tem sido amplamente utilizada no tratamento de tumores localizados na cabeça, pescoço e região pélvica. Devido à sua capacidade de direcionar a dose de radiação com maior precisão, há uma redução significativa dos efeitos colaterais indesejáveis, tornando-se uma opção preferencial para esses tipos de câncer.
Câncer pediátrico
A protonterapia tem se mostrado especialmente benéfica no tratamento de cânceres pediátricos. Devido à sua precisão, há uma menor exposição de tecidos saudáveis à radiação, o que é crucial em pacientes jovens, reduzindo o risco de efeitos colaterais a longo prazo e preservando o desenvolvimento normal das crianças.
Segundo o CSN (Consejo de Seguridad Nuclear), órgão espanhol, globalmente estima-se que mais de 19 mil pacientes com câncer sejam tratados anualmente com protonterapia. Projeções indicam que, até 2030, esse número possa aumentar para 300 mil pacientes por ano, refletindo a expansão e a adoção crescente dessa modalidade terapêutica.
A experiência internacional, como nos EUA e na Europa, comprova que o alto investimento inicial dessa tecnologia – um Centro de Protonterapia pode custar cerca de US$ 50 milhões, entre instalações físicas e equipamentos – é compensado pela economia obtida a longo prazo, resultando em um impacto financeiro positivo.
E enquanto os equipamentos convencionais de radioterapia têm uma vida útil de apenas 10 anos, os de protonterapia podem operar por até 30 anos, com atualizações constantes.
Além disso, a redução de complicações proporcionada por essa terapia diminui os custos indiretos, como tratamentos de suporte, reabilitação e afastamento do trabalho de pacientes.
Como funciona a protonterapia
A protonterapia é uma forma avançada de radioterapia que utiliza feixes de prótons, partículas subatômicas carregadas positivamente, para tratar tumores cancerígenos com uma precisão superior à radioterapia convencional.
Enquanto a radioterapia tradicional emprega raios-x (fótons), que liberam energia ao longo de todo o trajeto no corpo – atingindo tanto o tumor quanto os tecidos saudáveis ao redor, a protonterapia tem uma característica física única chamada pico de Bragg, que permite depositar a maior parte da energia exatamente no local do tumor, minimizando danos às estruturas adjacentes.
O tratamento começa com um planejamento detalhado, utilizando imagens de ressonância magnética ou tomografia computadorizada para mapear a localização exata do tumor e suas relações com órgãos vitais. Com esses dados, uma equipe multidisciplinar – composta por radio-oncologistas, físicos médicos e engenheiros – calcula a trajetória ideal do feixe de prótons, ajustando sua energia para que ela seja liberada precisamente na profundidade do tumor.
Os prótons são acelerados em equipamentos como ciclotrons ou sincrotrons até atingirem velocidades próximas à da luz. Quando esses prótons penetram no corpo, eles interagem pouco com os tecidos até alcançarem o ponto programado, onde liberam sua energia máxima, destruindo o DNA das células cancerígenas e impedindo sua multiplicação. Essa propriedade é particularmente vantajosa no tratamento de tumores próximos a áreas sensíveis, como o cérebro, a medula espinhal, os olhos ou órgãos de crianças, onde a preservação de tecidos saudáveis é crucial para evitar sequelas a longo prazo.
Hoje, o Brasil ainda não dispõe de um Centro de Protonterapia, mas existem projetos como o da Unicamp em parceria com o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), que propõe um centro integrado de protonterapia e medicina nuclear em São Paulo, e iniciativas de entes privados com a Fundação Educacional Severino Sombra (Fusve) para, com o apoio do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e do Centro de Protons da Quironsalud em Madrid, referência mundial e europeia, implementar um Centro no município.
Desafios começam no projeto da instalação
Um Centro de Protonterapia é considerado uma instalação de alta complexidade, sendo equivalente a uma instalação nuclear, porque utiliza aceleradores de alta energia, geralmente acima de 220 MeV, para gerar e manipular feixes de prótons de alta energia, gerando radiações ionizantes de alta intensidade, exigindo assim, os mesmos níveis de controle, segurança e regulamentação de instalações nucleares.
Além disso, e diferentemente de uma instalação de radioterapia tradicional, o qual a barreira radiológica requerida (bunker) é desenhada e construída exclusiva para tal finalidade, em projetos de protonterapia o bunker faz “parte do sistema”, e requer, assim, um projeto de engenharia detalhado e de alta precisão. Partes das peças mecânicas, que podem ter um peso acima de 100T, devem ser apoiadas e milimetricamente instaladas sobre a infraestrutura.
Durante o funcionamento do equipamento, podem ser geradas radiações secundárias, como nêutrons livres. Esses nêutrons, por serem altamente penetrantes e difíceis de conter, representam um risco adicional de exposição para profissionais e estruturas adjacentes, o que demanda o uso de blindagens pesadas, normalmente compostas por metros de concreto denso.
Portanto, os requisitos de segurança radiológica para a instalação de um Centro de Protonterapia deve seguir normas rígidas de proteção radiológica, como:
- Monitoramento de dose ocupacional
- Intertravamentos de segurança (interlocks)
- Controle de acesso às áreas de feixe
- A operação e manutenção exigem profissionais com licenciamento em radioproteção
No Brasil, centros de protonterapia são licenciados pela CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear), assim como outras instalações nucleares.
Assim, sua implementação demanda alta expertise em engenharia e planejamento durante todo o projeto de construção, e a Tractebel é a única empresa de engenharia consultiva, no Brasil, capacitada para esse tipo de projeto.
As habilidades multidisciplinares em engenharia da Tractebel cobrem todo o ciclo de vida da instalação, alinhada às necessidades da instituição de Saúde e mantendo a conformidade com os padrões e normas internacionais e nacionais.
Nossa proposta de engenharia de valor para o setor de Saúde inclui:
- Diligência para validação de localização
- Projeto de Layout, incluindo potencial integração a áreas já existentes
- Suporte e validação de capex
- Estratégia e viabilidade
- Projeto e comissionamento das instalações
- Suporte à operação da planta
- Descomissionamento
Nosso profundo conhecimento em projetos nucleares e de processos, aliado à sólida experiência em infraestruturas hospitalares, torna a Tractebel uma parceira única para soluções em medicina nuclear.
Oferecemos suporte completo ao longo de todas as etapas do ciclo de vida de instalações de medicina nuclear, incluindo:
- Avaliação regulatória, caracterização do local, licenciamento, análise de risco e relatório de segurança
- Gerenciamento de projeto e coordenação técnica
- Projeto e BIM (Building Information Modeling 3D), abrangendo:
- Obras civis
- Sistemas de HVAC (aquecimento, ventilação e ar-condicionado)
- Instalações elétricas
- Instrumentação e controle
- Sistemas de processos
- Soluções mecânicas
- Proteção contra incêndio
- Proteção e blindagem contra radiação
- Suporte à operação e atualização de instalações
- Estratégias de descontaminação e descomissionamento, relatórios de segurança e caracterização de resíduos radioativos.
Contar com a Tractebel na instalação de centros de protonterapia é ter a parceria de uma empresa com sólida experiência em engenharia nuclear e um histórico de excelência em projetos de alta complexidade técnica. A protonterapia, por ser uma das tecnologias mais avançadas no tratamento do câncer, exige um nível de precisão, segurança e conhecimento multidisciplinar que poucas empresas no mundo dominam – e a Tractebel está entre elas.
Nossa experiência em infraestrutura para aplicações médico-nucleares, aliada à capacidade de integrar soluções desde o planejamento até a operação, garante que cada etapa do projeto ocorra com máxima eficiência, dentro das normas regulatórias e com os mais altos padrões internacionais.
Além disso, unimos expertise global e conhecimento local, o que é essencial para viabilizar projetos no contexto brasileiro, considerando os desafios específicos de licenciamento, logística e integração com o Sistema de Saúde. Atuamos como parceira estratégica, conectando investidores, instituições de Saúde e fornecedores de tecnologia, reduzindo riscos e acelerando o retorno do investimento.
Com uma abordagem centrada em inovação, segurança e sustentabilidade, a Tractebel oferece não somente a capacidade técnica, mas a visão necessária para transformar a protonterapia em uma realidade acessível e de alto impacto social.